Era uma vez, uma menina que não gostava de si mesma.
Todos os dias, nos seus pensamentos, fazia alguma maldade consigo.
De segunda a sexta, ficava se remoendo em críticas sobre seu rosto, sua voz e seu jeito. No sábado, desejava não ter nascido…
Um dia, como toda criança, ficou entediada.
Resolveu caminhar pela sua casa. Entrou no quarto da mãe e chegou em frente a um armário.
Subiu em uma cadeira e se esticou para pegar uma caixa empoeirada lááá no alto.
Com a pontas dos dedos suados foi trazendo a caixa para si.
Dentro dela havia vários papéis. E um envelope velho chamou sua atenção.
Tinha uma espécie de papel duro ali dentro…
Abriu.
Era uma foto de um exame de ultrassom.
Nele viu o que o seu coração, em algum lugar, já sentia.
Viu duas de si.
Uma que nasceu e outra que não.

Fonte da imagem: Laura Steerman
Depois de atravessar o portal da descoberta, ficou noites sem dormir.
Por diversas vezes reabriu o envelope e olhou com as mãos onde seus olhos tocavam.
Por diversas vezes, perguntou por qual razão coube a si mesma ficar e a outra ir.
Quanto mais olhava para o exame, mais o retrato da falta se revelava.
Até que numa noite, acariciou a irmã e, disse:
“Você foi… eu fiquei… e levo você no meu coração”
Abraçou a foto sob o peito com toda a sua força,
Inspirou fundo…. Expirou alívio
E dormiu, como se abraçasse a si mesma.
Dora Nogueira – Constelações Familiares
