fbpx

Era uma vez, uma menina que não gostava de si mesma. 

Todos os dias, nos seus pensamentos, fazia alguma maldade consigo.

De segunda a sexta, ficava se remoendo em críticas sobre seu rosto, sua voz e seu jeito. No sábado, desejava não ter nascido…

Um dia, como toda criança, ficou entediada.

Resolveu caminhar pela sua casa. Entrou no quarto da mãe e chegou em frente a um armário. 

Subiu em uma cadeira e se esticou para pegar uma caixa empoeirada lááá no alto.

Com a pontas dos dedos suados foi trazendo a caixa para si.

Dentro dela havia vários papéis. E um envelope velho chamou sua atenção.

Tinha uma espécie de papel duro ali dentro…

Abriu.

Era uma foto de um exame de ultrassom. 

Nele viu o que o seu coração, em algum lugar, já sentia. 

Viu duas de si. 

Uma que nasceu e outra que não.

Fonte da imagem: Laura Steerman

Depois de atravessar o portal da descoberta, ficou noites sem dormir.

Por diversas vezes reabriu o envelope e olhou com as mãos onde seus olhos tocavam. 

Por diversas vezes, perguntou por qual razão coube a si mesma ficar e a outra ir.

Quanto mais olhava para o exame, mais o retrato da falta se revelava.

Até que numa noite, acariciou a irmã e, disse: 

“Você foi… eu fiquei… e levo você no meu coração”

Abraçou a foto sob o peito com toda a sua força,

Inspirou fundo…. Expirou alívio

E dormiu, como se abraçasse a si mesma. 

Dora Nogueira – Constelações Familiares